Por Aline Merladete – Agrolink
O Banco Central decidiu interromper o ciclo de redução da taxa básica de juros e manteve a Selic em 13,75% ao ano. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorre em meio ao aumento das expectativas de inflação, à valorização do dólar e às incertezas sobre as contas públicas. Com isso, o custo do crédito deve permanecer elevado nos próximos meses, influenciando as decisões de consumo e investimento das empresas.
A manutenção acontece após cinco reuniões consecutivas em que a Selic havia sido reduzida em 0,25 ponto percentual. Embora a atividade econômica apresente sinais de desaceleração, o Banco Central optou por não avançar na flexibilização monetária diante das pressões inflacionárias.
Segundo Volnei Eyng, CEO da Multiplike, as expectativas divulgadas pelo Boletim Focus, associadas ao cenário econômico, indicam inflação acima do limite de 4,5% da meta nos próximos 18 meses. A elevação dos preços do petróleo e o comportamento do câmbio também contribuíram para a decisão.
A resistência da inflação de serviços é outro fator apontado pelos especialistas. Mesmo com a perda de ritmo da economia, esse componente continua dificultando uma redução mais rápida dos juros.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, avalia que a deterioração das expectativas inflacionárias e o aumento das incertezas fiscais limitaram a possibilidade de novos cortes. Para ele, a dificuldade não está apenas em reduzir a taxa básica, mas em criar condições para que a trajetória de queda seja sustentável.
Crédito permanece restritivo para empresas
A decisão do Copom mantém as condições de financiamento mais exigentes, principalmente para empresas que dependem de recursos de terceiros para financiar suas operações e expandir atividades.
O custo elevado do dinheiro influencia desde a contratação de empréstimos até a formação de estoques e a antecipação de recebíveis. Empresas com maior necessidade de capital de giro ficam mais expostas às despesas financeiras, especialmente quando existe um intervalo prolongado entre a venda e o recebimento dos valores.
Leticia Moschioni, sócia da Finscale, observa que a administração desse intervalo ganha importância em um ambiente de juros altos. Segundo sua avaliação, a dependência de insumos importados também amplia a pressão sobre os custos quando o dólar se valoriza.
Para Valdir Piran Jr., CEO do Intra, empresas com maior endividamento podem enfrentar dificuldades adicionais para refinanciar operações, além de limites de crédito mais restritos e taxas elevadas. A geração de caixa e o planejamento dos vencimentos das dívidas tornam-se fatores importantes para manter a capacidade de investimento.
Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest, avalia que o atual patamar da Selic também afeta a análise de projetos empresariais de longo prazo. Com o aumento do retorno exigido pelos investidores, negócios em expansão precisam apresentar maior consistência financeira e perspectivas de rentabilidade.
Cenário fiscal e dólar dificultam redução dos juros
Além da inflação doméstica, o ambiente fiscal brasileiro e as condições econômicas internacionais influenciam as decisões de política monetária.
As dúvidas relacionadas à trajetória da dívida pública elevam a percepção de risco dos investidores, que passam a exigir remuneração maior para aplicar recursos no país. Esse movimento pode pressionar o câmbio e dificultar a redução das expectativas de inflação.
Gustavo Assis, CEO da Asset, considera que a recuperação da confiança depende de medidas fiscais capazes de estabilizar as contas públicas. Na avaliação do executivo, sem uma trajetória fiscal consistente, a política monetária poderá permanecer restritiva por mais tempo.
No cenário externo, a manutenção dos juros americanos em níveis elevados e a alta do petróleo acrescentam dificuldades ao processo de controle inflacionário.
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, destaca que o dólar se aproximou de R$ 5,50 mesmo com a Selic em 13,75% ao ano. Segundo ele, a diferença entre os juros praticados no Brasil e nos Estados Unidos não é suficiente, isoladamente, para determinar o comportamento da moeda.
Com as taxas americanas entre 3,75% e 4%, os ativos denominados em dólar continuam oferecendo alternativas de remuneração aos investidores internacionais.
Famílias sentem efeitos no financiamento
A permanência da Selic no atual patamar também influencia as condições de crédito para as famílias. O financiamento de compras e a contratação de empréstimos continuam sujeitos a taxas elevadas, com impacto sobre o valor das parcelas e a capacidade de pagamento dos consumidores.
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, aponta que as operações sem garantias tendem a sofrer maior influência do risco de inadimplência. Em financiamentos com garantias reais, as instituições podem avaliar condições específicas conforme as características de cada operação.
No mercado imobiliário, os efeitos dos juros elevados convivem com indicadores de crescimento da atividade. Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), citados por Alex Sales, fundador da Alumbra Empreendimentos Design, mostram que os financiamentos destinados à construção alcançaram R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, aumento de 107%.
Sales avalia que as condições de financiamento devem permanecer próximas das atuais nos próximos meses. Uma redução mais perceptível das taxas oferecidas pelos bancos dependerá do comportamento dos juros futuros.
Investimentos acompanham expectativas de inflação
A manutenção da Selic também repercute no mercado financeiro. As aplicações pós-fixadas preservam a atratividade em um ambiente de juros elevados, enquanto títulos prefixados e vinculados à inflação permanecem sujeitos às oscilações das taxas futuras.
Felipe Assunção, head comercial da Revert, observa que alterações nas projeções de juros modificam a avaliação dos riscos das carteiras de investimentos. O executivo destaca que a diversificação entre instituições, fundos e moedas exige atenção à exposição conjunta aos mesmos fatores econômicos.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, considera que a manutenção da Selic busca evitar uma redução antecipada capaz de provocar novas pressões sobre os juros futuros. Segundo sua análise, a deterioração do cenário fiscal influencia a remuneração exigida tanto nos títulos públicos quanto nas operações privadas de financiamento.
Projeções indicam cautela até o fim de 2027
Para a reunião de dezembro, a expectativa predominante entre os especialistas é de nova manutenção da taxa básica em 13,75% ao ano.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, não descarta uma redução de 0,25 ponto percentual caso os indicadores de inflação apresentem melhora e o comunicado do Copom sinalize espaço para novos ajustes. Entretanto, considera essa possibilidade menos provável no momento.
Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, também prevê estabilidade no curto prazo. Na avaliação do especialista, uma retomada consistente dos cortes dependerá principalmente da melhora das expectativas inflacionárias, da estabilização do câmbio e da redução das incertezas fiscais.
Para o encerramento de 2027, as projeções apresentadas pelos analistas apontam diferentes possibilidades de redução dos juros.
Edgar Araújo, da Azumi Investimentos, estima Selic de 12,25% e inflação medida pelo IPCA próxima de 4,6%. Alex Sales, da Alumbra Empreendimentos Design, trabalha com taxa de 12,50% e inflação de 4,7%.
Valdir Piran Jr., do Intra, projeta Selic de 12,5% e IPCA de 4,8%. Já Alberto Friggi, da Friggi & Secco, e Fábio Murad, da Wiser Asset, estimam juros de 12,75% e inflação de 4,8%.
As projeções de Leticia Moschioni, da Finscale, e Felipe Assunção, da Revert, indicam Selic próxima de 13% e inflação de 4,9%. Antonio Patrus, da Bossa Invest, também considera juros ao redor de 13%, mas com inflação próxima de 5%.

